Terça, 31 Outubro 2017 12:46

Dor crônica: importante conhecer a respeito!

Dor crônica: importante conhecer a respeito!

 

A dor é conceituada como uma experiência sensorial e emocional desagradável e descrita em termos de lesões teciduais reais ou potenciais. É sempre subjetiva e cada indivíduo aprende e utiliza este termo a partir de suas experiências.

Umas das principais razões que levam as pessoas a procurarem um médico é o aparecimento de dor. E ainda bem que podemos sentir dor! Ela nos avisa que algo está errado, tendo uma função de alerta, o que chamamos de função adaptativa. Geralmente estímulos perigosos a integridade de nosso corpo produzem a chamada dor nociceptiva, como acontece quando nos queimamos, cortamos, rompemos tecidos, temos problemas viscerais, lesões musculares etc. Se o período que sentimos essa dor é curto, a chamamos de dor aguda. Mas em alguns casos a dor não vai embora, mesmo após a cicatrização da lesão, e se torna difícil de controlar. Se continua após 3 meses, podemos dizer que ela é crônica.

A dor crônica é um capítulo à parte. Cerca de 80% dos americanos sentem lombalgia (dor na parte baixa das costas) durante as suas vidas. Estima-se que 15-20% desenvolvam dor prolongada e cerca de 2-8% têm dor crônica.

Há grande impacto sobre o campo profissional. O Instituto de Medicina dos Estados Unidos considerou a dor crônica como um problema de saúde pública. A dor lombar, por exemplo, é um problema de alto custo médico e social nos Estados Unidos, sendo causa de perda de 1400 dias de trabalho por mil habitantes por ano; na Europa, é a mais frequente causa de limitação em pessoas com menos de 45 anos e a segunda causa mais frequente de consulta médica. Na Holanda, são registrados 10.000 casos novos, a cada ano, de pacientes incapacitados para o trabalho pela dor. No Brasil, em estudo realizado com pacientes com dor crônica, verificou-se que 94,9% apresentava comprometimento da atividade profissional.

Outra enfermidade caracterizada por dores crônicas e difusas é a fibromialgia, que chega a acometer de 2 a 10% da população, principalmente mulheres, e se traduz por vários pontos dolorosos localizados nas costas e membros, frequentemente associada a dor de cabeça, sensação de cansaço, sono ruim e depressão.

Na Dor Crônica, os mecanismos fisiológicos envolvidos na percepção e regulação de dor estão geralmente muito alterados. Ela deixa de ser um mero sinal de alerta e passa ser uma entidade patólogica complexa, uma doença em si, que envolve circuitos neuronais hipersensíveis e superespecializados para a condução de dor – a chamada Sensibilização Central, com resposta modulatória insuficiente. E que seria essa resposta modulatória insuficiente?  Parece ocorrer que aqueles recursos naturais do nosso cérebro que regulam a dor (Sistema Inibitório Descendente, produtor de serotonina e noradrenalina; e Sistema Opióide Endógeno, com as endorfinas e encefalinas) não conseguem suprimir adequadamente o desconforto doloroso. Aí, mesmo que o estímulo doloroso, a causa, não seja grave, a percepção da dor se torna amplificada e exagerada.

Além de ocorrer fênomenos neurológicos e neuroquímicos, existem ainda aspectos psicológicos muito particulares na gênese e manutenção da dor crônica. O estresse, a ansiedade, depressão, a baixa tolerância à presença do estímulo doloroso pode resultar num quadro de sofrimento mais intenso, não condizente com a ameaça real do estímulo. Em outras palavras, o estado emocional de cada um pode ser decisivo para gerar a Sensibilização Central e a Dor Crônica, caso a pessoa já seja geneticamente predisposta.

Se a dor crônica tem suas causas e manifestações tão complexas, o tratamento também não é simples.

A primeira coisa a se fazer é analisar a situação por um prisma mais abrangente, contemplando questões não somente físicas, mas também psicológicas, sociais, e até mesmo mais filosóficas, como o sentido que damos para as nossas vidas, a transcendência, a espiritualidade e a religiosidade. Nesse campo, existem muitos estudos que mostram impactos positivos no tratamento da dor quando as pessoas têm fé, acreditam que podem melhorar e se sentem motivadas por princípios trazidos pelas religiões.

Devemos nos educar, ler a respeito de nossos problemas, entender mais sobre a dor, assuntos como fibromialgia e sensibilização central, para que terapeutas e pacientes estejam mais afinados para o tratamento. Geralmente uma equipe multidisciplinar deve ser composta, com atuação conjunta de médicos, psicólogos, fisioterapeutas etc.

A atividade física é fundamental para pacientes com dor crônica! Exercícios ajudam a promover o equilíbrio das várias funções orgânicas, mantendo os sistemas musculoesquelético, neural e endócrino mais saudáveis. Ainda ajudam a liberar endorfinas, que são “analgésicos naturais” produzidos pelo nosso corpo.

Devemos cuidar dos aspectos psicoemocionais, reconhecer quando estamos com ansiedade, estresse, depressão, perdendo o medo e o preconceito de procurar psiquiatras e psicólogos. Sem o controle adequado dos problemas da mente, dificilmente resolveremos as questões do corpo.

Sono de boa qualidade e reparador é outro aspecto a ser alcançado.

E um tratamento adequado da dor, com medidas medicamentosas e não medicamentosas. Mesmo tendo que tomar medicamentos que causam alguns efeitos colaterais, é preferível tratar adequadamente a dor do que deixá-la causar danos e limitações às nossas vidas. Procedimentos como acupuntura, meditação, yoga, frequentar grupos de apoio etc podem ser de grande valia.

Em suma, apesar de se tratar de uma condição que nos causa sofrimento e prejuízos em nossas vidas (física, profissional e socialmente), devemos saber que a dor crônica tem tratamento e existem profissionais para nos ajudar. Precisa-se ter paciência e esperar por resultados consistentes somente a longo prazo. Não há fórmulas miraculosas e fáceis, que dispensem o esforço pessoal e a vontade firme de prosseguir lutando. Apoio psicológico é imprescindível, e sempre vale a pena cultivar atitudes e pensamentos positivos.

 

Lawrence Garcia

Médico ortopedista

 

Bibliografia de apoio:

· Tratado de Dor: publicação da Sociedade Brasileira para Estudo da Dor/ Irimar de paula Posso... [et al.]. – 1 ed – Rio de Janeiro: Atheneu, 2017.

· Kreling MCGD, Cruz DALM, Pimenta CAM. Prevalência de dor crônica em adultos. Revista Brasileira de Enfermagem 2006 jul-ago; 59(4): 509-13.

· Guia para o tratamento da dor em contextos de poucos recursos, acessado em https://www.iasp-pain.org/files/Content/ContentFolders/Publications2/FreeBooks/GuidetoPainManagement_Portuguese.pdf

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